NÃO DEVERIA SE CHAMAR AMOR
[PARA ANTONIO]
(PAULINHO MOSKA)

O AMOR que eu te tenho é um afeto tão novo
Que não deveria se chamar AMOR
De tão irreconhecível, tão desconhecido
Que não deveria se chamar AMOR

Poderia se chamar NUVEM
Pois muda de formato a cada instante
Poderia se chamar TEMPO
Porque parece um filme a que nunca assisti antes

Poderia se chamar LA-BI-RIN-TO
Pois sinto que não conseguirei escapulir
Poderia se chamar A U R OR A
Porque vejo um novo dia que está por vir

Poderia se chamar ABISMO
Pois é certo que ele não tem fim
Poderia se chamar HORIZONTE
Que parece linha reta mas sei que não é assim

Poderia se chamar PRIMEIRO BEIJO
Porque não lembro mais do meu passado
Poderia se chamar ÚLTIMO ADEUS
Que meu antigo futuro foi abandonado

Poderia se chamar UNIVERSO
Porque sei que não o conhecerei por inteiro
Poderia se chamar PALAVRA LOUCA
Que na verdade quer dizer: aventureiro

Poderia se chamar SILÊNCIO
Porque minha dor é calada e meu desejo é mudo
E poderia simplesmente não se chamar
Para não significar nada e dar sentido a tudo

Juro que não vai doer se um dia roubar o seu anel de brilhante,

afinal de contas dei meu coração e você pôs na estante,

como MUTANTE...

A LUA NÃO MUDA DE LUGAR.

O frio na barriga é inevitável.

Ao adentrar no palco, o magma de meus sentimentos é derramado a cada olhar trocado.

Os passos ensaiados, acompanhados por minha gente, resplandece em mim a volúpia incessante de amar.

Amo a todos, então não amo ninguém!

Em cima do palco, domino o mundo, elevo sonhos, exalto o amor. Sou desejado por Marias, Patrícias, Antonios, Gustavos... torno-me o falso herói, aclamado pela velha história, porém minha história, o público a desconhece. Falso poeta, não faço poesia, apenas vomito a realidade de maneira sutil, trabalhada. Um herege.

As luzes de meu camarim não possuem brilho, acenderei o lampião, ele levará consigo a derrota, a hipocrisia do ser humano, a falsa candura de meu talento. Dizem-me para ficar atento, mas sou artista, não faço parte deste mundo, ele que se vire e me entenda, Já cheguei!

O caminho de casa é longo, um cenário paupérrimo de cores e efeitos atravessam meu caminhar, é difícil chegar, mas o fácil enjoa-me, não me motiva a andar.

Fechei a porta, nenhum cachorro me lambe, nem sequer sacode o rabo, nenhuma criança corre ao meu encontro, nenhuma boca encosta em minha boca.

Uma vida crua, sem alma.

À instantes o mundo me abraçava, exalava sua essência transparente para que eu pudesse tragá-la. Deito-me agora, amparado por minhas lágrimas que escoam por entre as letras fundidas, nas páginas amareladas de um livro. Os discos foram arranhados, as cartas não mais existem, o sábio Cyber levou-as embora, jogou-as no lixo.

Andarei nu, pois cansei deste mundo pós-industrial, irei despir minhas idéias, pois aqui não me é válido sonhar, de que adiantam as rimas, se não sei amar?

Por mim mesma

Meu nome é?

No princípio eu era a Eva

Nascida para a felicidade de Adão

E meu paraíso tornou-se trevas

Porque ousei libertação.

Mais tarde fui Maria

Meu pecado redimiria

Dando à luz aquele que traria a salvação

Mas isso não bastaria

Para eu encontrar perdão.

Passei a ser Amélia

A mulher de verdade

Para a sociedade

Não tinha a menor vaidade

Mas sonhava com a igualdade.

Muito tempo depois decidi: Não dá mais! Quero minha dignidade Tenho meus ideais!

Hoje não sou só esposa ou filha Sou pai, mãe, arrimo de família

Sou caminhoneira, taxista, piloto de avião

Policial feminina, operária em construção.

Ao mundo peço licença Para atuar onde quiser

Meu sobrenome é Competência

O meu nome é Mulher!

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