
NÃO DEVERIA SE CHAMAR AMOR
O AMOR que eu te tenho é um afeto tão novo
Que não deveria se chamar AMOR
De tão irreconhecível, tão desconhecido
Que não deveria se chamar AMOR
Poderia se chamar NUVEM
Pois muda de formato a cada instante
Poderia se chamar TEMPO
Porque parece um filme a que nunca assisti antes
Poderia se chamar LA-BI-RIN-TO
Pois sinto que não conseguirei escapulir
Poderia se chamar A U R OR A
Porque vejo um novo dia que está por vir
Poderia se chamar ABISMO
Pois é certo que ele não tem fim
Poderia se chamar HORIZONTE
Que parece linha reta mas sei que não é assim
Poderia se chamar PRIMEIRO BEIJO
Porque não lembro mais do meu passado
Poderia se chamar ÚLTIMO ADEUS
Que meu antigo futuro foi abandonado
Poderia se chamar UNIVERSO
Porque sei que não o conhecerei por inteiro
Poderia se chamar PALAVRA LOUCA
Que na verdade quer dizer: aventureiro
Poderia se chamar SILÊNCIO
Porque minha dor é calada e meu desejo é mudo
E poderia simplesmente não se chamar
Para não significar nada e dar sentido a tudo

Juro que não vai doer se um dia roubar o seu anel de brilhante,
afinal de contas dei meu coração e você pôs na estante,
como MUTANTE...
A LUA NÃO MUDA DE LUGAR.
O frio na barriga é inevitável.
Ao adentrar no palco, o magma de meus sentimentos é derramado a cada olhar trocado.
Os passos ensaiados, acompanhados por minha gente, resplandece em mim a volúpia incessante de amar.
Amo a todos, então não amo ninguém!
Em cima do palco, domino o mundo, elevo sonhos, exalto o amor. Sou desejado por Marias, Patrícias, Antonios, Gustavos... torno-me o falso herói, aclamado pela velha história, porém minha história, o público a desconhece. Falso poeta, não faço poesia, apenas vomito a realidade de maneira sutil, trabalhada. Um herege.
As luzes de meu camarim não possuem brilho, acenderei o lampião, ele levará consigo a derrota, a hipocrisia do ser humano, a falsa candura de meu talento. Dizem-me para ficar atento, mas sou artista, não faço parte deste mundo, ele que se vire e me entenda, Já cheguei!
O caminho de casa é longo, um cenário paupérrimo de cores e efeitos atravessam meu caminhar, é difícil chegar, mas o fácil enjoa-me, não me motiva a andar.
Fechei a porta, nenhum cachorro me lambe, nem sequer sacode o rabo, nenhuma criança corre ao meu encontro, nenhuma boca encosta em minha boca.
Uma vida crua, sem alma.
À instantes o mundo me abraçava, exalava sua essência transparente para que eu pudesse tragá-la. Deito-me agora, amparado por minhas lágrimas que escoam por entre as letras fundidas, nas páginas amareladas de um livro. Os discos foram arranhados, as cartas não mais existem, o sábio Cyber levou-as embora, jogou-as no lixo.
Andarei nu, pois cansei deste mundo pós-industrial, irei despir minhas idéias, pois aqui não me é válido sonhar, de que adiantam as rimas, se não sei amar?
Por mim mesma

Meu nome é?
No princípio eu era a Eva
Nascida para a felicidade de Adão
E meu paraíso tornou-se trevas
Porque ousei libertação.
Mais tarde fui Maria
Meu pecado redimiria
Dando à luz aquele que traria a salvação
Mas isso não bastaria
Para eu encontrar perdão.
Passei a ser Amélia
A mulher de verdade
Para a sociedade
Não tinha a menor vaidade
Mas sonhava com a igualdade.
Muito tempo depois decidi: Não dá mais! Quero minha dignidade Tenho meus ideais!
Hoje não sou só esposa ou filha Sou pai, mãe, arrimo de família
Sou caminhoneira, taxista, piloto de avião
Policial feminina, operária em construção.
Ao mundo peço licença Para atuar onde quiser
Meu sobrenome é Competência
O meu nome é Mulher!

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