Nem O Sol, Nem A Lua, Nem Eu

Lenine

Composição: Lenine

Hoje eu encontrei a Lua
Antes dela me encontrar
Me lancei pelas estrelas
E brilhei no seu lugar
Derramei minha saudade
E a cidade se acendeu
Por descuido ou por maldade
Você não apareceu

Hoje eu acordei o dia
Antes dele te acordar
Fui a luz da estrela-guia
Pra poder te iluminar
Derramei minha saudade
E a cidade escureceu
Desabei na tempestade
Por um beijo seu

Nem a Lua, nem o Sol, nem Eu
Quem podia imaginar
Que o amor fosse um delirio seu
E o meu fosse acreditar

Hoje o Sol não quis o dia
Nem a noite o luar.

 EU NECESSITO DE VOCÊ:

A favela é a nova senzala

Revanche

Lobão

Composição: Lobão e Bernardo Vilhena

Eu sei que já faz muito tempo que a gente volta aos princípios
Tentando acertar o passo usando mil artifícios
Mas sempre alguém tenta um salto, e a gente é que paga por isso,oh!
Fugimos prás grandes cidades, bichos do mato em busca do mito
De uma nova sociedade, escravos de um novo rito
Mas se tudo deu errado, quem é que vai pagar por isso?
Quem é que vai pagar por isso? Quem é que vai pagar por isso?
Quem é que vai pagar por isso?
Eu não quero mais nenhuma chance, eu não quero mais revanche
Eu não quero mais nenhuma chance, eu não quero mais ...
A favela é a nova senzala, correntes da velha tribo
E a sala é a nova cela, prisioneiros nas grades do vídeo
E se o sol ainda nasce quadrado, e a gente ainda paga por isso
E a gente ainda paga por isso, e a gente ainda paga por isso
E a gente ainda paga por isso
Eu não quero mais nenhuma chance, eu não quero mais revanche
Eu não quero mais nenhuma chance, eu não quero mais ...
O café, um cigarro, um trago, tudo isso não é vício
São companheiros da solidão, mas isso só foi no início
Hoje em dia somos todos escravos, e quem é que vai pagar por isso
Quem é que vai pagar por isso? Quem é que vai pagar por isso?
Quem é que vai pagar por isso?
Eu não quero mais nenhuma chance, eu não quero mais revanche


Salvador Dali não ousou imaginar-me...

O Beijo – Linguagem Universal

 

“Para quem ama, o mundo despe a sua máscara de imensidão e se torna pequeno como uma canção, como um beijo do eterno.”

Tagore

 

     O leve roçar dos lábios numa dança de sincronismo inato. Corpos guiados por emoções singulares que, num momento de pura ternura, se revelam gêmeas. O contato doce e quente da boca com a pele trêmula, ansiosa por um contato momentâneo que lhe imprima a sensação infinita de se ter o universo vibrando nas entranhas. A formalidade dos beijos artificiais que se disseminam como projéteis sem rumo pelas salas de reunião, pelas festas, escritórios... atingindo a todos com a sua pérfida doçura. O toque íntimo, convertido em instrumento cego da volúpia do instante. O respeitoso beijo nas mãos. A submissão do beijo nos pés. Muitas são suas formas e as motivações que principiam esse gesto praticado por homens e mulheres em todo o mundo, que serve para demonstrar amor e carinho, para incitar os desejos, para representar docilidade ou cordialidade, submissão e respeito... Entretanto, qualquer eu seja o seu significado e diversidade de formas, ele nunca passa despercebido, seja por sua sinceridade, seja por sua crueza.

     Mais do que um simples gesto (conquanto alguns dos exemplos elencados neguem a veracidade da afirmação), beijar é abrir ao outro o próprio eu. Sentir a pessoa num contato completo. Suprimir a superficialidade da fricção entre as peles. Colher as gotículas da alma que se desprendem na sensação úmida do enlace, fazendo com que terreno e etéreo, exterior e interior se fundam numa única matéria sob o signo do amor.

     Talvez a prática concreta de tal ato não tenha sempre a sublimidade com a qual as palavras a caracterizam, nem tampouco as qualidades metafísicas que lhe são atribuídas pelos poetas apaixonados e sensibilizados, os que alcançaram, no labor solitário das letras, a definição mais íntima que ousaram descrever. A respeito dessa dimensão prática, parece que o “beijar” mergulhou em certa banalização, sendo associado muito mais à excitação e ao erotismo (no sentido popular da palavra) do que à manifestação pura da afetividade, ao menos dentro do mundo ocidental. Não é incomum a mídia veicular a idéia de que beijar é um ato independente do envolvimento sentimental. Ela não só acaba por refletir a postura contemporânea ante a questão, mas também por reitera-la e legitimá-la, fazendo com que tenhamos a falsa idéia de que o prazer supera em gênero, número e grau a importância do sentimento verdadeiro.

     Olhemos as crianças e seus abraços carinhosos, seus beijos tenros e inocentes. O beijo apaixonado de dois corações que enfim se encontraram, depois de haverem percorrido as infindáveis fronteiras da solidão. A mãe a saudar o fruto de seu amor com o mais supremo dos afagos, com um carinho que deveríamos reviver a cada momento num memorial eterno do afeto. Contemple a natureza em seus toques sinceros. A terra esturricada que renasce ao contato com a chuva, como um coração dolorido que redescobre a felicidade no beijo amigo que lhe recobra o ânimo. As ondas que vêm e vão contra as pedras. O vento fresco que nos alivia do calor. O sol que nos aquece sem machucar.

     Aprendamos a deixar nosso eu vir à tona. Sem medo de que nos machuquem ou nos estranhem. Aprendamos de nós mesmos, como um dia desaprendemos.

     Beijar com desejo autêntico é como nascer, pois, por meio do beijo, mostramos o que realmente somos, o que sentimos, o que sonhamos... nascemos para nós mesmos e para o outro.

                   

                                                                               Carlos E. Siqueira.

 

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